domingo, 31 de março de 2013

A menina e a boneca




A menina ganhou uma boneca.
O menino ganhou um carrinho.
O menino olhou para a boneca...
e olhou para a menina.
A menina olhou para o carrinho...
e olhou para o menino.
O menino fez “vrum vrum!”,
A menina deu a mamadeira.
E não se falou mais nisso.




quarta-feira, 27 de março de 2013

Reinvenção




A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


(Cecilia Meireles)



domingo, 24 de março de 2013

Desejos

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.


(Carlos Drumond de Andrade)

Anônimo

o vinho do tinto
o quanto do enquanto
o rosa da rosa
o choro do pranto

o brando do fraco
o grito do forte
a glória do sangue
o cheiro da morte

o guarda da espera
o leito da cama
a chuva nascente
o lume da chama

o gozo do sádico
esguicho chafariz
 bela donzela
triste meretriz

o foco da foto
sujeira da lama
poesia fulgaz
palavra insana

o canto do quarto
metade do inteiro
sujeito anônimo
 fim da tristeza


quinta-feira, 21 de março de 2013

Sem Budismo


       Poema que é bom
acaba zero a zero.

        Acaba com.
Não como eu quero.
        Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
        veneno de letra,
bolero. Ou menos.
        Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
        Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
        e sozinho.



(Paulo Leminski)







domingo, 17 de março de 2013

Pesada Pena



Se sou bom ou não, não sei.
Nunca saberei.
Não carrego mais em meu peito a serenidade que herdei.

Erro.
Acerto.
Erro mais que acerto.

E a vida leva em ventos para longe o que é correto.
Ficam somente as sombras.
Antigas sombras que pairam.
Não param.
Só passam.

Pois sabem que nesse mundo,
só é dado valor àquilo que não é profundo.
Leva em lagrimas de alegria e dor,
o que era para ficar,
mas não ficou.

Brindemos!
















Um brinde ao que nunca foi,
ao que não é
e ao que jamais será!





quinta-feira, 14 de março de 2013

Escher


Declaração


Ao teu lado viverei.
Um herdeiro te darei.
Juras a ti farei.
Me perder em ti irei.
Amar-te, não sei.



Sim, posso


Eu posso ensinar ao professor.
Eu posso me antecipar ao profeta.
Eu posso redigir ao escritor.
Eu posso vencer o atleta.
Eu posso escrever rimas de amor.
Eu posso ser um poeta.



segunda-feira, 11 de março de 2013

Mentiras

         

                M
                        vErdades
                N
                T
          escondIdas
                R
                A
                S



Boemia Fudida



Boemia fudida!
Só nela sinto o sabor da vida.
Maldita vida singela,
que me espreita da janela
e me vê adormecer.
Sentado no quarto,
com um copo de uísque barato.

Mais uma vez fui vencido por aquilo que mais temo:
Boemia! Eu lhes digo.