terça-feira, 29 de outubro de 2013




Não sei quantas vidas vivo.
Não sei de que esquemas participo.
Quero me livrar desse sistema nocivo
e viver apenas com o que preciso.



(Gualter)


segunda-feira, 28 de outubro de 2013



Um dia,
ainda vou ser mestre na difícil arte
de não dar murro em ponta de faca.



(Gualter)



sábado, 19 de outubro de 2013

Tudo e Nada


Quero organizar  bagunça do meu armário,
tirar os papéis antigos e deixar um espaço livre.

Quero entrar para uma ONG
ajudar os índios tapajós.

Quero conversar com os meus amigos
e iniciar uma empreitada a favor da vida.

Quero ir para o Zimbábue.
Cruzar o país e contar o que vi.

Quero deixar de lado as novas tecnologias,
viver só com o essencial.

Quero tacar fogo no corpo
e invadir a reitoria.

Quero fazer uma emboscada
e exigir justiça de resgate.

Quero explodir a TV.
Essa maldita TV!

Quero escrever contos
e encantá-los em seguida.

Quero fazer história.
Gravar meu nome num busto em bronze.

Quero ganhar um Nobel e um Pulitzer.
Por descobrir a cura do sofrimento e escrever um Tratado sobre o Amor.

Quero dedicar minha vida às crianças,
ensiná-las como pode ser bom viver.

Quero colorir o mundo.
Criar asas e desvendar os quatro cantos.

Quero convencer a humanidade que o egoísmo tem que acabar.
Dividir os bens e acabar com a fome.

E ao mesmo tempo,
não quero nada.



(Gualter)


terça-feira, 15 de outubro de 2013

¿De qué se ríe?


En una exacta
foto del diario
señor ministro
del imposible

vi en pleno gozo
y en plena euforia
y en plena risa
su rostro simple

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

de su ventana
se ve la playa
pero se ignoran
los cantegriles

tienen sus hijos
ojos de mando
pero otros tienen
mirada triste

aquí en la calle
suceden cosas
que ni siquiera
pueden decirse

los estudiantes
y los obreros
ponen los puntos
sobre las íes

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

usté conoce
mejor que nadie
la ley amarga
de estos países

ustedes duros
con nuestra gente
por qué con otros
son tan serviles

cómo traicionan
el patrimonio
mientras el gringo
nos cobra el triple

cómo traicionan
usté y los otros
los adulones
y los seniles

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

aquí en la calle
sus guardias matan
y los que mueren
son gente humilde

y los que quedan
llorando de rabia
seguro piensan
en el desquite

allá en la celda
sus hombres hacen
sufrir al hombre
y eso no sirve

después de todo
usté es el palo
mayor de un barco
que se va a pique

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe.




Mario Benedetti


O Enterrado Vivo


É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.


Carlos Drummond de Andrade